O Judiciário é feito de gente: pessoas por trás da Excelência
A excelência aparece nos indicadores. Mas começa nas pessoas. Por Prof. Dr. Edson De Paula
Quando alguém olha para o Judiciário, costuma enxergar processos, decisões, prazos e metas. Mas existe uma pergunta que precisamos fazer: quem são as pessoas que sustentam tudo isso?
Por trás de cada atendimento, de cada documento conferido e de cada resultado alcançado, há alguém colocando conhecimento, atenção e responsabilidade no trabalho. Há servidores, magistrados, gestores e equipes que lidam diariamente com demandas complexas e expectativas que nem sempre cabem em uma planilha.
A excelência aparece nos indicadores. Mas começa nas pessoas.
Falar sobre gestão de pessoas no Poder Judiciário é reconhecer essa relação. A qualidade do serviço prestado à sociedade também depende da maneira como os profissionais se comunicam, cooperam e encontram sentido naquilo que fazem.
Por trás de cada processo, existem pessoas dos dois lados
De um lado, está o cidadão que espera uma resposta. Pode ser uma família em conflito, alguém buscando um direito ou uma pessoa atravessando um dos momentos mais difíceis da vida. Do outro, estão profissionais que precisam conciliar rigor técnico, responsabilidade e sensibilidade humana.
Essa realidade exige preparo. E exige também um ambiente em que seja possível esclarecer dúvidas, compartilhar dificuldades e construir soluções em conjunto.
Pense em uma situação comum: alguém percebe um problema em uma rotina, mas prefere ficar em silêncio porque teme a reação da chefia. O problema continua. Outra pessoa encontra a mesma dificuldade. Aos poucos, aquilo que poderia ter sido resolvido em uma conversa passa a consumir tempo e energia de toda a equipe.
Por isso, comunicação, confiança e liderança fazem parte da excelência no serviço público. Elas aparecem na prática, na forma como o trabalho acontece.
O convite do TJTO e o reconhecimento de quem faz acontecer
Essa reflexão está no centro do convite que recebi para ministrar a palestra “O Judiciário é feito de gente: pessoas por trás da excelência”, na programação da Solenidade de Premiação do Selo MEG, promovida pela Corregedoria-Geral da Justiça do Tribunal de Justiça do Estado do Tocantins, o TJTO.
Conforme a divulgação institucional da Solenidade de Premiação do Selo MEG, o evento integra a 1ª Semana da Gestão de Excelência da CGJUS, com programação no auditório da Escola Superior da Magistratura Tocantinense, em Palmas, e transmissão para as comarcas do interior. O Selo MEG reconhece boas práticas e avanços na gestão das unidades judiciais de primeiro grau.
Receber esse convite tem um significado especial para mim. É uma oportunidade de colocar em pauta as pessoas que tornam os resultados possíveis, em um encontro dedicado justamente ao reconhecimento da excelência.
Na proposta da palestra, a reflexão parte de uma convicção que acompanha meu trabalho: valorizar pessoas precisa aparecer na maneira de conduzir o trabalho, todos os dias.
Isso envolve reconhecer contribuições, comunicar expectativas com clareza, assumir responsabilidades e compreender que ninguém constrói um resultado coletivo sozinho.
Liderança no Judiciário: a forma de cobrar também importa
Quem lidera uma equipe precisa acompanhar entregas, corrigir rotas e tomar decisões difíceis. O cuidado com as relações faz parte dessa responsabilidade.
É possível cobrar um prazo com firmeza e respeito. É possível apontar uma falha sem constranger alguém. É possível ouvir uma sugestão sem interpretar a iniciativa como uma ameaça à autoridade. Essas atitudes ajudam a construir um ambiente em que as pessoas conseguem trabalhar com mais clareza e participar da melhoria das rotinas.
Uma pergunta merece espaço na agenda de qualquer gestor: minha equipe se sente à vontade para me contar que alguma coisa está dando errado?
Se os problemas só chegam à liderança quando já ficaram grandes, vale observar como as conversas estão acontecendo. A excelência precisa de informação confiável. E parte dessa informação depende de alguém ter abertura para falar e de outro alguém ter disposição para escutar.
Reconhecimento precisa fazer parte da rotina
Uma premiação torna visível um esforço que muitas vezes acontece longe dos holofotes. Mas o reconhecimento também pode estar em gestos cotidianos.
Está no gestor que identifica a contribuição de uma pessoa e explica por que ela fez diferença. No colega que compartilha o que aprendeu. Na equipe que acolhe quem está chegando. Na conversa em que uma dificuldade é tratada com seriedade.
Dizer “parabéns” é positivo. Dizer “sua atenção evitou esse retrabalho e ajudou toda a equipe” mostra que o esforço foi percebido. As pessoas precisam saber o que se espera delas. Também precisam perceber que sua contribuição é vista.
Isso vale especialmente para os trabalhos discretos, repetitivos e essenciais. Aqueles que quase ninguém comenta quando tudo funciona, mas cuja ausência é sentida imediatamente.
Valorização Profissional e PROTAGONISMO é perceber a própria contribuição
No serviço público, protagonismo se expressa quando cada profissional compreende sua responsabilidade e participa da construção de um trabalho melhor. Pode estar na iniciativa de sugerir um ajuste, na disposição para ajudar um colega ou no cuidado de conferir uma informação antes de encaminhá-la.
Também exige condições para agir. Quem pede iniciativa precisa oferecer orientação, escuta e espaço para a participação.
Ao longo de mais de 30 anos estudando o comportamento humano nas organizações, tenho voltado minha atenção a essa ligação entre responsabilidade individual e relações de trabalho. Como doutor em Psicologia pela PUC-Campinas, autor e palestrante, levo essa reflexão a encontros sobre liderança, comunicação, protagonismo e conexão entre pessoas e organizações.
No Judiciário, essa conversa encontra um propósito concreto: contribuir para que o trabalho de cada profissional se conecte à qualidade do serviço que chega ao cidadão.
A excelência tem rosto
Tecnologia, planejamento e processos bem definidos são fundamentais. São as pessoas que utilizam esses recursos, interpretam informações, enfrentam imprevistos e fazem escolhas.
O convite do Tribunal de Justiça do Tocantins para essa palestra abre espaço para uma reflexão necessária: como continuar aprimorando os resultados enquanto valorizamos quem trabalha para alcançá-los?
Essa pergunta merece permanecer depois de qualquer solenidade. Porque, por trás de uma meta cumprida, existe dedicação. Por trás de uma melhoria, existe iniciativa. Por trás de um serviço bem prestado, existe alguém que compreendeu a importância do próprio trabalho.
O Judiciário é feito de gente. E reconhecer essa gente faz parte da excelência.
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